Canto, corro, estudo, como, rio e choro...Espero o vento levar todas as agonias desnecessárias. Mas ele nunca leva. e assim a gente fica, brincando nas ondas das velhas memórias, aquelas com cheiro de brechó. e insistimos nelas, e as negamos, produzindo um turbilhão de falsos pensamentos, de falsas preocupações, de situações já vividas, de dores já sofridas e repetimos o falso passado tentando, apressadamente, desenha-lo no presente e projeta-lo no futuro, sempre em vão.
Às vezes começa a parecer que nos agrada esse jogo. Pode parecer besteira, mas vestimos a carapuça e vendamos nossos olhos para fingir que não sabemos de nada, para pretender ser algo diferente do que nós mesmos já sabemos que somos. É muito mais fácil viver no passado repetidamente, infinitas vezes, por que já é conhecido....Mas o passado está morto. É preciso matá-lo constantemente e permitir que ele continue no lugar em que está.
Começamos, aos poucos, a aprender a seguir em frente, mesmo que seja gritando os nossos pulmões para fora e, ao passar do tempo, vamos descobrindo como é tomar nossas próprias escolhas, por nós mesmos, nem que sejam péssimas escolhas.
Não é fácil atribuir uma cor própria para as coisas, não é fácil dar os nomes certos para elas, mas lenta e vagarosamente vamos relembrando as letras e os tons e misturando eles da forma que lhes pertence e criando a música.
- quando as cores e as letras se misturam, elas dão vida à beleza inigualável do som.-
Já faz algum tempo em que eu quebrei meus próprios espelhos e tentei atribuir a mim mesma um novo rosto. O tempo passou, os cacos foram varridos, outros traços desenhados, mas ainda sou eu e os medos ainda continuam aqui e os amores.... Ah, os amores! Estes, somente estes, eu sei que continuaram, mesmo matando o passado e deixando-o ir, eu escolhi guardar um caco de vidro em meu bolso, há algumas ocasiões em que ele corta minha pele e a dor é quase insuportável, mas existem outras, tão raras outras vezes, em que o Sol e a Lua se iluminam em sua superfície fragilizada e essa luz, essa cor, esse som, me fazem não precisar de mais nada.
Há um certa completude nos gestos atrapalhados, nos olhares afobados, na voz desafinada...no som desatinado.
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