Toda essa besteira é para tentar driblar a solidão, pensar em outras coisas, viajar em outras cores. Vocês sabem como é. Cada vez mais dói estar sozinho demais, existem momentos em que a solidão é nossa melhor amiga, outros em que ela pode nos matar. Fico tentando decifrar os enigmas do mundo e no fim só tenho mais um fio de cabelo branco. Só. Sob a trilha sonora clássica de Pink Floyd me perco nas infinitas horas da vida e tento sair de meu corpo a voar; quero ser céu e mar. Já foi mais fácil ser mulher, ser mulher Lia. Entrar nas contradições da antiga Lia com a atual, como contraponto, é cotidiano. Quanto tempo demora para ser borboleta? Quanto tempo devemos esperar para que saiamos de nossos casulos para ver a luz do dia? Será que realmente saberemos distinguir essa luz?
Acho incrível reparar no imenso tamanho de minha indecisão. Paro e penso em tantas decisões não feitas, frases não ditas, sorrisos perdidos, tudo por conta de falsas escolhas, por causa de medo, insegurança, outras opções. O amor nos traz medo.
Não sou mais a mesma menina ou mulher ou garota ou ser que pensava e decidia tão facilmente, as coisas hoje em dia parecem pesar mais, ser mais sentidas, mais verdadeiras. Não sei como cheguei nesse momento de minha vida, mas juro que às vezes queria voltar ao passado, ver o que aconteceu para ficar assim e evitar que acontecesse, mesmo que significasse cortar minhas asas. Asas que cultivo, cuido, lavo e penteio todos os dias, todas as horas, todos os segundos, é bem capaz que eu acabe dando nome a elas e que faça de sua presença minha conversa constante. Não é mais fácil viver, já soube mais como seguir, como pensar e o que falar, hoje em dia tudo é uma virgula, uma reticências, um suspiro lançado ao ar.
Agora não mais tenho a trilha sonora tão amada, mas sim gritos apaixonados por um jogo de futebol, um jogo de poder e cultura. É tão bom quanto, essa excitação toda, esse fervor que nos faz sentir vivos. Juro à você que não queria tirar as poeiras debaixo de meu tapete, prefiro deixá-las lá, intocáveis, imperceptíveis, insensíveis à minha razão e olhar. Quero poder deitar e dormir no embalo das boas lembranças, do futuro incerto, não agüento mais os caroços debaixo de meu colchão. É incrível, as coisas passaram a me afetar mais, coisas tão pouco importantes, tão pequenas, passaram a ser maiores do que as que realmente valem a pena, será que perdi meu foco?
Antes eu queria ser Alice, ser chapeleiro, ser conto de fadas, hoje em dia tais sonhos se encontram aposentados no fundo das gavetas, gritando por socorro e por liberdade, assim como acho que meu coração também grita. Sou escandalosa. Me tornei rainha de copas que espera a rebelião de seus soldados, que espera o gato aparecer com a solução mágica de cortar a cabeça e esquecer a razão, perder a memória, ser só corpo no espaço infinito.
Pareço louca? Estarei assim perdida, acabada, desesperada? Não sei mais dizer se é preto ou branco, se é amor ou ódio, tristeza ou felicidade. Algumas palavras se perderam e não conseguem mais se encaixar no vão de minha vida, tem certas coisas que não fazem mais sentido algum. É estranho estar longe, sentir saudade e mudar de mundo, saber que podemos nos apoiar onde quer que estejamos desde que tenhamos a nós mesmos, desde que me mantenha sincera estarei bem acompanhada para qualquer canto que eu vá. Continuo me apaixonando por cada surpresa, pelo inevitável, pela vida; quando me pego olhando para qualquer-lugar-e-lugar-nenhum me maravilho, me transformo, as asas tão pequenas de borboleta saem de minha cabeça e parecem ser asa de fada, de animal mitológico, sinto que posso voar para bem longe e pro nunca mais. Preciso que alguém me segure, amarrem uma corda aos meus pés para que não possa desviar para lugar nenhum, “extraviar”, como uma carta mal escrita. Sou pedaço de papel no ar.
Sobre o que falava mesmo? Esqueci-me das linhas, dos assuntos, por que devemos escrever um texto inteiro sobre só uma coisa? Fico transtornada ao saber que não podemos conectar as frases e os sentidos, entrelaçar tudo que a nós faz sentido. Para mim tudo se liga, todas as nossas sensações e por possuir pensamentos assim, me chamam de louca, de absurda. Sou uma mulher que nunca vai desistir do amor, que sempre irá amar e que sempre e eternamente será apaixonada pela maravilha da vida.
Sinceramente, é estranho conhecer coisas e sentimentos que fingíamos, fortemente, não existir, assim com faço agora.
Me dedico à esse instante para dizer que sou realmente confusa, não saberia escolher entre a direita ou a esquerda, desde que eu sinta as benditas borboletas eu estou voando para qualquer lado, mas não sei o que acontece, fica parecendo que luto contra essas borboletas que sempre me mandam pro mesmo lado – estou evitando o destino.
