12 de maio de 2025

Palavras soltas

 

Venho pensando cada vez mais nesse cantinho empoeirado no fundo da alma, como uma gaveta fechada e travada por teias de poeira e madeira podre.

Fico pensando se talvez essa seja a solução: voltar a pôr sentimento em palavras, transmitir por subjetivos e adjetivos as pequenas corrosões que sinto em minha alma a cada dia que passa.

O prolongado vazio.

O som do silêncio ensurdecedor.

Já houve um dia. Um dia no qual a escrita tomava conta de mim, em que os diálogos intermináveis na minha mente tinham lugar nesse pequeno canto que criei aqui. Um sarau sem convites ou convidados.

Houve um dia em que dilacerava minha alma e compunha longas lamúrias, uma ode melancólica para minha própria pena.

Às vezes me pego desejando escrever, desejando desenhar, desejando algo que não tem nome, nem cor, nem forma — e me sinto desamparada.

A escrita é um ritual, e eu, aqui sentada do outro lado dessa tela, questiono cada palavra e pontuação desse experimento mágico, buscando através da janela o conforto do vento, das árvores, do cheiro enebriante de goiaba no ar.

"Aqui não farei sentido" — decido. E ousaria questionar se um dia eu fiz.

"Aqui descansarei meus pés exaustos." — mais uma regra. Quantas regras criei ao longo dos anos para dar algum senso e ordem a uma vida embaralhada?

"Aqui vou decidir." Decidir qualquer coisa, eu imagino — desde que eu decida algo.

Veremos até onde a melancolia me navega.

Até onde ficarei sem rumo.

Até onde pequenas palavras, feito bolhas, me sustentarão.

Olá de volta, canto.

4 de dezembro de 2012

Tempo

Estou me desconhecendo.
Fico com a eterna sensação de perder pedaços de mim, me vejo andando na rua e como rastro, partes de meu corpo e fragmentos de minha mente, num processo de desconstrução.
Quem dera eu positiva.
Me tornei meu próprio medo e só dele me alimento. Medo de doença, medo de morte, medo de amar - medo de ser amado. Ser alegre e positiva não é mais algo assim..."piece of cake", requer muito e muita energia, energia que não tenho mais a disposição.
A gente vai descobrindo que as baterias não duram pra sempre, que elas se viciam e eventualmente, deve-se ficar na tomada o tempo inteiro, isso não é só com computadores, celulares e outros, acontece com nós mesmos, começamos a nos carregar em fontes erradas, em tomadas trocadas, em tempos equívocos.
Me sinto como meu computador, com a bateria quente e sobrecarregada o tempo inteiro, mesmo que descanse dois-três dias, sempre quente. Sempre exausta.
Exausta de mim mesma, exausta por saber que me encontro incapaz de mudar aquilo que quero, incapaz de me alterar, de me recriar e produzir. Estou exausta da dor, do desolamento, dos sonos interrompidos numa madrugada de tormentos, estou exausta de minhas relações pessoais-individuais-globais.

Me sinto como uma quebra de linha.

Eu sou o desassossego.

Tento me procurar dia e noite e se não consigo, me procuro em meus sonhos, passando por trilhas e viagens em caravelas, tento achar de novo aqueles pedaços que me faziam ser mais eu e mais completa, pedaços que me impediam de me danificar. Sinto-me militando contra mim mesma, jogando pedras e pichando meus vazios interiores com frases de rebeldia e revolta. Estou acabando comigo. Tento me encontrar em cada segundo dos olhos fechados, tento redesenhar um mapa itinerante. Um mapa que me leve o mais perto possível de Lia. Lia criança. Lia cheia de energia.

Quero de volta cada segundo que me abandonei.

Quero de volta cada gota de suor, cada lágrima de amor, cada riso de saudade. Quero de volta minha saúde, meus medos infantis.
Quero de volta aquilo que posso querer.

Pois sim, não sei mais o que tenho.

4 de setembro de 2012

dots

Encaramos novamente aquele momento em que todas as suas certezas parecem mais incertas do que nunca.
Não saber o que quer ou o que não quer.
Não ter nenhuma pista de pra onde ir ou onde ficar.
Sempre aconselhamos aos outros a "confiarem no seu taco", "pense positivo", "vai dar tudo certo" e outras do gênero, mas e aí? Vai mesmo? E se o nosso taco não for o suficiente e se faltar culhões ou até mesmo uma ajudinha? Se se tudo estiver dando errado ou nada estiver acontecendo? Me diga, por favor, o que fazer então?
Antigamente achava que a resposta para todos os problemas era encher o coração de amor e seguir em frente, mas atualmente já não parece mais estar surtindo tanto efeito. Sim, o amor é lindo e sim, ele nos dá uma força a mais, mas ele não resolve problemas, de mais a mais só os aumenta, inclusive o amor não paga minhas contas, nem tem que acordar no mesmo horário para se arrastar ao trabalho de todo dia.
O amor é lindo, mas me falta. Eu e ele já não nos entendemos como antes.
E se a solidão me pegar de rasteira? O amor não cria barreiras pra se estar sozinho, ele não nos protege das aflições da vida.
É capaz de me infartar.
Mas ainda assim, mesmo não sendo nada do que poderia, ele ainda fica lá longe, feito lampião em estrada, sinalizando que por algum caminho estamos andando e que se continuarmos poderemos enxergar melhor os nossos entornos - até chegar lá.
Antes fazia do amor inspiração para os textos mais loucos, para os cantos mais surdos, para os desenhos mais intoxicantes. Hoje, o que acho no amor é um alento, uma canção para me por para dormir. Um intervalo nas preocupações.
Quantas preocupações.
E não é por falta de sofrimento. Não é por falta de tristeza ou desconforto.
Não. É por excesso de tudo.
O excesso de tudo me impede de criar e ir longe. O excesso de mim mesma me dificulta o levantar no amanhã.
Mesmo quando perdi todos os refugios, ainda encontrava uma saída: o amor e a comida.
Mas até isso me largou, as facas não conversam comigo, até mesmo pelo contrário, me xingam, me afastam, me repugnam, me empurram para bem longe delas. Estou guardada no armário. Não há calor na beira do fogão.
E nessa tristeza me afogo, longe do prazer, longe do sentir, longe do amor.
Me mudando e me transformando a cada minuto, dia, estação, como borboleta bipolar.
Buscando uma imagem qualquer para um ser qualquer.
E a eterna insatisfação.

Insatisfeita, sento à varanda a fumar meu cigarro, esperando que um vento gelado faça minha mente acordar,  esperando que todas os contornos ruins se congelem e deem margem para todas as coisas esquecidas.
Buscar tranquilidade nas plantas geladas e nas cores pastéis. Mas os olhos não enxergam nem fotografia.
Se cansam, capengam, ardem, outros que estão se aposentando de mim, fazendo suas malas e me mandando à merda.
Parece que ainda não aprendi a fazer um bom trabalho ao cuidar de mim.
Me distraio com o arredor, me esqueço, me apago no entorno apagado da noite paulistana.
Me apago na existência do próximo.

Por isso o amor não cria nada.
Me afogo no outrem.
Mergulho sem boia ou segurança e me esqueço de me criar.

16 de maio de 2012

Esquina da Vida

Saber assim que as coisas não funcionam como relógio, na eterna constância do tic-tac. Que pronunciar um nome ou lembrar de um rosto pode reviver esquecimentos e causar pequenas insônias.
Ao sair, ando pelas ruas molhadas de chuva, suor e cansaço, cada paço leva a um novo olhar de um futuro imaginado, de um presente improvisado, de um passado esquecido e que me leva a escrever roteiros intermináveis de minhas intermitências, de falas que agradam - é incrível nossa capacidade de remontar o que nos convém.
Sento agora na esquina de todos os momentos e assisto o vai e vem de bolas coloridas nas querida mesa verde, todos apostando suas noites e transformando cada aposta num motivo de riso e grito. A expressão literal do cotidiano das esquinas. A emoção contida num movimento certo.
Mais certeza do que meus olhos e coração.
Fica só a vontade de pertencer a uma realidade como essa, de pertencera uma rota de fuga tão pura e suja ao mesmo tempo. Pensei em fugir já, achei somente a profundeza de pensamento em cima de um palco, porém deveria ter buscado algo como isso.
Estamos todos aqui fugindo.
Deveria fugir como eles, em tacos quebrados e moedas perdidas, na paisagem fixa e eterna de uma reunião de vícios, cada jogada se joga uma angustia, um sonho mal realizado.
E aqui, por um segundo, pertenço a essa cena e divido o mesmo motivo. Retrato a fuga como uma forma de despertencer e fugir....
Tento esquece e apensa abstrair o contorno, mesmo co todos os olhos em cima de mim.
Todo nós somos personagens na mesma história, somos até os mesmos personagens. E estamos todos perdidos, porém juntos.
E andar e para no espaço, e esse espaço me permite ser outra de mim mesma, sem lembrar daquilo que problematiza todo o resto.
O vício pelo jogo e pela aposta.
O jogo sem regras da vida, da mesa das indiferenças.

Segunda, 14 de Maio de 2012
Lia de Godoy Ferraz