Venho pensando cada vez mais nesse cantinho empoeirado no fundo da alma, como uma gaveta fechada e travada por teias de poeira e madeira podre.
Fico pensando se talvez essa seja a solução: voltar a pôr sentimento em palavras, transmitir por subjetivos e adjetivos as pequenas corrosões que sinto em minha alma a cada dia que passa.
O prolongado vazio.
O som do silêncio ensurdecedor.
Já houve um dia. Um dia no qual a escrita tomava conta de mim, em que os diálogos intermináveis na minha mente tinham lugar nesse pequeno canto que criei aqui. Um sarau sem convites ou convidados.
Houve um dia em que dilacerava minha alma e compunha longas lamúrias, uma ode melancólica para minha própria pena.
Às vezes me pego desejando escrever, desejando desenhar, desejando algo que não tem nome, nem cor, nem forma — e me sinto desamparada.
A escrita é um ritual, e eu, aqui sentada do outro lado dessa tela, questiono cada palavra e pontuação desse experimento mágico, buscando através da janela o conforto do vento, das árvores, do cheiro enebriante de goiaba no ar.
"Aqui não farei sentido" — decido. E ousaria questionar se um dia eu fiz.
"Aqui descansarei meus pés exaustos." — mais uma regra. Quantas regras criei ao longo dos anos para dar algum senso e ordem a uma vida embaralhada?
"Aqui vou decidir." Decidir qualquer coisa, eu imagino — desde que eu decida algo.
Veremos até onde a melancolia me navega.
Até onde ficarei sem rumo.
Até onde pequenas palavras, feito bolhas, me sustentarão.
Olá de volta, canto.

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